O Doctor resmungão

14-09-2014 18:14

Por esta altura já qualquer fã da série sabe que nenhuma cara do Doctor dura para sempre. Todos têm “o seu” Doctor, mas o momento da regeneração é uma parte fulcral não só na narrativa como da própria continuidade do programa.

Afinal, tudo podia ter acabado em 1966, quando a saúde de William Hartnell já não o deixava continuar no ritmo de trabalho que a personagem exigia. Felizmente lembraram-se de dar esta capacidade ao Doctor, ainda que só mais tarde lhe chamassem de facto regeneração, e Patrick Troughton continuou o trabalho de Hartnell enquanto Doctor.

O mais interessante deste momento é que permitiu que a própria personagem fosse sofrendo alterações ao longo da história do programa, o que é bem visível nesta primeira mudança: se Hartnell era um verdadeiro ancião, muitas vezes com um ar frágil e com um papel de avôzinho sábio, Troughton injectou uma energia enorme no papel. Parecia mais um tio porreiro que outra coisa!

No entanto as características fundamentais estabelecidas pelo First Doctor de Hartnell continuavam lá, não deixando margem para dúvidas de que era, efectivamente, a mesma personagem. É claro que a partir do Second Doctor de Troughton, já com a longevidade do programa em vista, acabaram por desenvolver de tal forma a personagem, que dizemos hoje que foi Troughton quem de facto a estabeleceu como ela é hoje.

E depois esta tendência perpetuou-se, dando origem ao programa de Ficção Científica mais duradouro da história, e que já vai no décimo terceiro actor (oficial) para a personagem principal!

Mas após cinquenta anos, que influência é que a regeneração tem na personagem? Se dermos razão ao Doctor mais recente – o Twelfth, Peter Capaldi – em Deep Breath, talvez fiquemos um pouco angustiados: já tanto mudou, que não há nada da versão original. O que é que isto significa? Que o Doctor muda tão completamente que eventualmente deixamos de o reconhecer?

Talvez, mas eu discordo. E se querem uma prova, prestem atenção a Sarah Jane Smith, protagonizada pela recentemente falecida Elizabeth Sladen: foi companion do Third Doctor de Jon Pertwee, do Fourth Doctor de Tom Baker, e chegou a conhecer o Fifth Doctor de Peter Davison, em The Five Doctors, mas na nova série não teve problemas em reconhecer o Tenth Doctor de David Tennant, em School Reunion, nem o Eleventh Doctor de Matt Smith, num episódio de The Sarah Jane Adventures. Porque apesar de tudo, o Doctor é o mesmo.

Além disso concordo com este artigo (http://io9.com/what-every-doctor-who-regeneration-says-about-each-doct-1489242422) que diz que cada nova encarnação tem a personalidade em parte definida como resposta à personalidade da encarnação anterior. Daí aquela diferença entre o First e o Second. E, na minha opinião, daí a personalidade do Twelfth Doctor.

Eu sei que a amostra até agora ainda é pequena: quatro episódios completos e duas aparições curtas em dois episódios especiais, mas juntamente com todas as informações e pistas dadas por Moffat e companhia (sem nunca esquecer a primeira regra: o Moffat mente!) e o tipo de publicidade que foi feita, é possível termos uma boa ideia.

Vejamos! Matt Smith foi um Doctor soberbo, capaz de balançar o espírito jovial que nunca abandona a personagem com o intensidade que o peso de um milénio de vida lhe traz. Era um Doctor saltitão, goofy, caótico, e alien, no sentido de peculiar e extremamente emotivo. Mas foi também um Doctor muito trágico. A partida dos Pond, a sua relação com River, o mistério de Clara, o reencontro com o War Doctor (brilhantemente interpretado pelo veterano John Hurt), uma vida atribulada e novecentos anos de guerra em Trenzalore... Tudo isto causou uma reacção muito forte no Doctor.

Uma reacção chamada Peter Capaldi. Este Doctor de sotaque escocês é resmungão e rezingão desde o início, com o Shush! a Strax, e fica bastante satisfeito por ser escocês, pois isso significa que pode queixar-se das coisas! Com um aspecto mais velho que o Eleventh Doctor, este Doctor é uma reposta às agruras vividas por essa encarnação.

Ainda mais alien, desta vez no sentido de distante, nem sequer é uma hugging person, ao contrário do Eleventh, que deve ter sido o Doctor mais carinhoso e afectuoso de sempre. E se o Doctor anterior era um idealista, sempre desejoso de salvar toda a gente, este não tem problemas em ver um homem morrer e ainda usar a sua morte para os seus próprios objectivos.

Pragmático, em vez de sonhador. Distante, em vez de afectuoso. Duro e zangado, em vez de maravilhado. Manipulador e resmungão, mais interessado no bem maior, na sua própria sobrevivência e em cumprir os seus objectivos, o Twelfth Doctor marca a diferença em relação ao seu antecessor e é o sinal de uma mudança no próprio tom do programa: mais negro e sério, e menos kid-friendly.

Mas é importante ver que, apesar de tudo isto, não deixa de ser o Doctor. O alien de bom coração capaz de salvar o Universo e dizimar raças inteiras, disposto a queimar uma estrela para dizer adeus, casar com a psicopata que o quer matar, manipular quem lhe é mais próximo mas também sacrificar-se por quem lhe é importante.

 

Artigo da autoria de Rui Bastos integrante da equipa Whoniverso