Uma mulher Doctor: quando o machismo ganha

01-02-2015 16:22

Vamos lá ver se nos entendemos. Doctor Who é uma série que tem um longo historial de escolhas arriscadas e decisões que amedrontam muita gente. Mais de cinquenta anos de história não é brincadeira, especialmente hoje em dia, com os fãs completamente obcecados e mais protectores da série do que nunca.

Um Doctor frio e calculista? Nem pensar! A Clara sai? Nem pensar! A Clara fica? Nem pensar! Ninguém explica já termos visto a cara do Doctor na série? Nem pensar!

Enfim, há sempre alguém insatisfeito. Esta conversa da fluidez de género na sociedade de Timelords, e da possibilidade de termos uma Doctor é apenas mais um exemplo disso mesmo. Só que desta vez levado ao extremo.

É algo que já foi aceite como canon, por Moffat logo quando o Eleventh Doctor acaba de regenerar e conclui que não é uma rapariga (e portanto reconhecendo que isso era uma possibilidade), e mais tarde via Neil Gaiman e o/a Corsair, uma personagem abertamente reconhecida como pertencente a ambos os sexos, conforme a regeneração.

Quando a Missy foi revelada como Master, podia ter sido apenas mais um passo nessa aceitação, mas não pode ser, porque o Master é o Master e não devia ser uma mulher! Muita gente ficou bastante satisfeita – a actuação de Michelle Gomez é para lá de impecável – mas muita gente ficou também imensamente chateada.

O que veio a seguir? A possibilidade de o próximo Timelord a regenerar como mulher ser o próprio Doctor. Reacções? “Impossível!”, “Se isso acontecer, deixo de ver o programa!”, “Isso não faz sentido nenhum!” e “Assim vai-se passar a usar o Doctor como meio de propaganda de certas ideologias!”. Não passou muito disto.

Vamos por partes. Primeiro, não é impossível, pelas razões que expliquei acima. É até bastante óbvio, quando o Eccleston diz, antes de regenerar, que vai mudar cada célula do seu corpo. Bem... Porque não mudar de sexo? Não é uma mudança assim tão grande para alguém que já teve quase dois metros, mas também um pouco menos de um e setenta.

Segundo, se isso acontecer, deixam de ver o programa? Como? Pergunto-me o que seria da série se em 1966, quando o Doctor de Hartnell regenera para o Doctor de Troughton, estas pessoas existissem. A coisa tinha ficado por ali, não era? “O quê? Mudar o actor? Se isso acontecer, deixo de ver a série!” Enfim, nem vale a pena levar a sério.

Terceiro, como assim não faz sentido? Qual é o problema? Sabemos que já aconteceu com outros Timelords, portanto porque não com o Doctor? A única diferença dele para os outros da sua raça é ele ainda estar vivo (ou não estar preso num universo paralelo).

Quarto, chegou a altura do drama. Por se querer tornar o Doctor numa mulher, corre-se o risco da personagem se torna num veículo de propaganda? Porque raio? Isto parece aquele discurso do pessoal que não percebe nada de nada e depois diz “malditos comunistas, a culpa é deles e das suas conspirações”.

Mas querem saber qual é o pior disto tudo? É Peter Davison, Fifth Doctor, alguém que ficou com a série marcada a ferros no ADN, dizer que não se pode ter uma Doctor porque não ia ser bom perder a dinâmica do Doctor forte com uma companion mais necessitada, ao substituir o Doctor por uma Doctor, mais insegura e falível. (http://www.abc.net.au/news/2015-01-28/doctor-who-peter-davison-says-time-lord-should-not-be-woman/6052880)

Isto caiu-lhe tão mal. Porque é o Doctor havia de passar a ser inseguro e falível só porque passa a ter seios? Por causa do machismo. Digam o que disseram, isto é machismo do mais puro possível, um dos mais perigosos, pois as pessoas nem se apercebem do que estão a fazer até alguém lho apontar. É machismo intrínseco, que só existe por causa de anos e décadas e séculos de opressão feminina. Agora que o papel da mulher está finalmente a começar a ser valorizado como deve ser, alguém ainda pensar, seriamente, que o Doctor tornar-se numa mulher implica que a personagem se torne “insegura” e “falível”... Enfim.

A frase até pode estar ligeiramente fora de contexto, mas isto não é coisa que se diga. Especialmente de alguém tão acarinhado pelos fãs... Sim, está a trazer a polémica de volta, algo que até pode muito bem ser uma manobra publicitária, mas o facto é que o disse, e que lhe caiu mal.

Eu pessoalmente até gostava de ver uma mulher como Doctor. As possibilidades tão tantas, que eu só me consigo é rir. Não o considero nenhuma traição à personagem, nem à série, nem nada que se pareça. Mas parece que neste caso, e até agora, é o machismo que está a ganhar. O que é uma pena. Mas vamos tentar não o deixar ganhar completamente... Somos todos mais espertos do que isso. Venha daí uma Doctor, mas é!

Artigo da autoria de Rui Bastos, membro da equipa Whoniverso